IVG - ANA CATARINA MENDES : Deputada do PS
Finalmente Portugal virou uma página
negra na sua história – a do aborto clandestino, a do
medo, a da indignidade, a da humilhação, a de uma lei
penal injusta e inadequada à realidade. Acordámos, neste
12 de Fevereiro de 2007, mais tranquilos, mais optimistas e mais responsabilizados
para legislar no sentido que os portugueses escolheram – despenalizar
a interrupção voluntária da gravidez (IVG) até às
dez semanas em estabelecimento de saúde legalmente autorizado.
A vitória do “sim” no referendo é resultado
do empenho dos vários movimentos cívicos que se mobilizaram
na defesa de uma sociedade mais respeitadora dos Direitos Humanos. Os
partidos tiveram um papel determinante na consciencialização
de que estávamos perante um problema grave. O Partido Socialista,
como partido responsável, assumiu este combate com determinação
na defesa da alteração da lei penal aproximando-nos dos
nossos congéneres europeus. Ganhámos. Mas, acima de tudo,
quem ganhou foram as mulheres e as famílias portuguesas que poderão,
agora, recorrer a uma interrupção voluntária da
gravidez em condições de saúde dignas. Cumpriu-se
mais um pouco o princípio da igualdade de oportunidades – acesso
aos cuidados de saúde para todos.
E o futuro mais próximo como será depois deste referendo?
O processo legislativo reabrir-se-á na Assembleia da República,
em sede de Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos
Liberdades e Garantias. Serão apresentadas propostas, na especialidade,
para melhorar a lei indo ao encontro das melhores práticas europeias
nesta área. Assim, o Partido Socialista apresentará a proposta
que, ao longo da campanha, tem defendido. A lei deve consagrar a obrigatoriedade
de uma consulta médica, onde quem decida interromper a gravidez
possa ser aconselhado e informado dos riscos inerentes a uma interrupção
de gravidez a que se seguirá um período de reflexão,
não superior a três dias, para que a decisão final
seja esclarecida, informada e ponderada. Ao isolamento da decisão
(nestes 23 anos de vigência da actual lei) sobrepor-se-á uma
decisão partilhada com médico, sem medos ou vergonha. Às
condições desumanas do aborto clandestino dar-se-á lugar
a IVG com condições de saúde dignas.
O Partido Socialista honrou o seu compromisso eleitoral – realizar
um referendo para mudar a lei penal com o objectivo de acabar com as
perseguições e investigações criminais, com
os julgamentos, com as condenações. Os portugueses responderam
que queriam a alteração ao Código Penal, cabe-nos
agora cumprir o resto do compromisso assumido – verter na lei a
despenalização da interrupção voluntária
da gravidez até às dez semanas em estabelecimento de saúde
legalmente autorizado. A todos os que duvidavam deste compromisso eleitoral
fica aqui demonstrado que as promessas são para cumprir.
Foi uma longa batalha, uma luta dura, mas a força das convicções
por uma lei penal socialmente justa vingou. A sociedade portuguesa está de
parabéns.